quinta-feira, 29 de março de 2012

A enganação chegando ao fim.
Logo que saiu da presidência do Corinthians, Andrés Sánchez disse que a Libertadores não o preocupava mais, por ter certeza de que até 2014 ou 2015, no máximo, o clube será campeão. A bravata faz sentido. O Corinthians se organizou, se equilibrou, vem montando elencos cada vez mais fortes e, acima de tudo, a sequência de participações no torneio vai deixando o time mais cascudo e ensinando a disputá-lo. Cada competição tem seu jeitão especial, e a Libertadores é uma das mais peculiares. Quem não entender isso, dança. 
É evidente que o Flamengo não sabe jogar Libertadores. Por isso foi eliminado por times mais fracos em 2007, em 2008 e provavelmente será agora em 2012. (A exceção foi 2010, na eliminação para a Universidad de Chile. Na ocasião o Flamengo estava ainda mais bagunçado do que o usual e o adversário era melhor mesmo.) Ainda dá para o Flamengo se classificar? Sim. Tem um jogo fora de casa com o time mais fraco do grupo e depois decide no Engenhão, enquanto Lanus e Olimpia terão que se pegar. Mas não acho que seja essa a questão mais importante. 
Semana passada, quando terminou o jogo entre Emelec e Lanus, no Equador, com a vitória do Lanus por dois a zero, fiz uma continha rápida e vi que o resultado fora ruim para o Flamengo. O ideal seria o empate, e se alguém tivesse que vencer, seria melhor o Emelec. Mas rapidamente corrigi a mim mesmo e pensei: quer saber? Time que fica fazendo conta na primeira fase da Libertadores tem mais é que cair fora. 
Não compactuo com essa onda de que é preciso se classificar a qualquer custo pra Libertadores. Isso vale para o Figueirense e o Goiás. Passar da primeira fase tem que ser motivo de festa para o Deportivo Táchira e o Juan Aurich. Mas clube grande tem que partir do princípio de que só é importante ir pra Libertadores se tiver time pra brigar. Do contrário é melhor nem entrar, reconhecer as deficiências e batalhar para corrigi-las. 
Vendo, nas últimas rodadas do Brasileirão do ano passado, aquele bando rubro-negro garantir a vaga na Libertadores sabe Deus como, eu não conseguia enxergar qual era o objetivo e aonde aquilo ia chegar. Ou alguém, em sã consciência, acha possível ganhar a competição com o David Braz na zaga? 
É claro que, nesses torneios divididos em fases, o que acontece numa fase não tem a menor interferência no que ocorre nas outras. E o maior exemplo disso será sempre o da seleção italiana de oitenta e dois. Depois de uma primeira fase de chorar, em que empatou os três jogos (Polônia, Peru e Camarões) e só foi adiante por ter feito um gol a mais que Camarões, a Itália ganhou a Copa derrotando, seguidamente, a ótima seleção argentina, a fantástica seleção brasileira, a Polônia e a Alemanha. 
Outro dia o Riquelme declarou que a Libertadores começa de verdade no mata-mata. Ao que tudo indica, menos para o Flamengo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O maior canhoto da história. 
Enquanto os campeonatos estaduais não atingem momentos minimamente interessantes, o futebol de fim de semana vai ficando em segundo plano e a gente aproveita pra dar uma espiada em outras coisas. 
Foi assim que revi o documentário sobre o maior canhoto de todos os tempos. Não, não foi o Gérson, nem o Rivellino, nem mesmo o Maradona. O maior canhoto de todos os tempos foi Jimi Hendrix, sobretudo quando jogava ao lado de Mitch Mitchell e Noel Redding. Revê-lo em “A história de Jimi Hendrix”, acabando com o jogo em “Hey, Joe” e “Like a Rolling Stone” no Festival de Monterey, por exemplo, é bacana demais. E é divertido ouvir Pete Townshend contar sobre o dia em que recebeu um telefonema de Eric Clapton convidando-o para ir ao cinema, mas que o principal motivo do convite era os dois conversarem sobre o guitarrista americano que chegara para abalar a cena inglesa e, possivelmente, reduzir o prestígio de ambos. Estamos falando de Pete Townshend e Eric Clapton. 
Mas esse é um blog sobre futebol, e outro grande presente que os chochos estaduais me reservaram no final de semana foi abrir espaço para a leitura do texto de Nuno Ramos na edição de março da Piauí. Partindo da derrota do Santos para o Barcelona, Nuno – que é santista – faz uma análise magnífica do nosso futebol e das nossas seleções. O cara é pintor, escultor, escritor, cineasta, cenógrafo, compositor e manja muito, mas muito mais de futebol do que qualquer um dos pretensiosos e despreparados jornalistas esportivos que infestam nossos jornais, sites e tevês. 
Pra quem gosta de futebol, é leitura obrigatória.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Corinthians e Vasco não são melhores que os outros. Mas são diferentes dos outros.
Assim que o Brasileirão acabou, a ESPN fez um programa “Bola da Vez” com o técnico Tite. Alguém perguntou que time ele mais temera durante o campeonato, e Tite não titubeou: o Vasco. Não apenas por ter sido o segundo colocado, mas porque, segundo Tite, não é difícil perceber quando um time está coeso, decidido, forte – e fez um gesto apertando as duas mãos. Pra mim ficou claro que Tite não falava de forma, digamos, filosófica, esse papinho de união, pacto etc. Tite se referia à maneira como o Vasco se comportava dentro do campo, pois é o que vale. 
Na quarta-feira eu estava vendo Corinthians x Cruz Azul, enquanto conversava com minha filha pelo telefone. Lá no Rio, ela assistia a Vasco x Libertad. Nina gosta muito de futebol e entende do assunto. Os dois jogos estavam no início do segundo tempo, quando ela interrompeu o que eu falava pra dizer: "O Vasco tá dando um calor danado nesse time paraguaio. Tá a maior pressão. O gol vai sair já, já." Menos de um minuto depois, ela me interrompeu de novo para avisar: "Pronto. Gol do Vasco. Juninho." Enquanto isso, aqui em São Paulo, o Corinthians cercava o Cruz Azul de todo jeito e revelava, pelo menos pra nós, brasileiros, um grande goleiro – o mexicano Corona, tão bom quanto a homônima cerveja. 
Mas o assunto desse post é o seguinte: Corinthians e Vasco, no papel, não são melhores do que Flamengo, Fluminense e Inter. (O Santos fica fora disso, por estar acima de todos e resolver tudo na base da qualidade.) Por que, então, Corinthians e Vasco conseguem uma intensidade de jogo que você não vê nos outros? Calor, pressão, domínio absoluto, há quanto tempo a torcida do Flamengo não vê isso num jogo do time, mesmo contra adversários fracos como o Emelec, por exemplo? Com exceção de duas partidas – aquela inacreditável, inexplicável, totalmente atípica e, por isso mesmo, desconsiderável vitória sobre o Santos por cinco a quatro e aquele finalzinho contra o Fluminense, que Bottinelli definiu com dois belos chutes de fora da área –, quando mais o Flamengo foi buscar um jogo que parecia perdido, como a gente tem cansado de ver Corinthians e Vasco fazerem? Pelo contrário: o que o time mais tem feito é entregar jogo ganho. 
O Inter, muitas vezes, se comporta de modo irritantemente blasé. O Fluminense tem bons jogadores, mas me dá a impressão de que algo ali não dá liga. Não sei explicar de onde vem essa diferença que a gente nota claramente no Corinthians e no Vasco. Se alguém souber, a caixa de comentários está aí pra isso mesmo. 
O Fox Sports tem um jeito diferente de mostrar os jogos. Eles usam uma câmera bem alta, com plano totalmente aberto, e ontem foi curioso ver o Santos contra um time que simplesmente se recusava a cruzar a linha do meio-campo. Eram os onze lá atrás sem qualquer pudor, e tome pancada. Poucas vezes vi isso. Futebol requer dois times em campo, se não é linha de passe, bobinho, dupla de praia (ainda se joga isso no Rio?). Aí a luz acabou no Pacaembu, logo depois acabou lá em casa, e não vi mais nada. O que vi, achei engraçado. Coisas de Libertadores.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Esopo firme e forte nos campeonatos estaduais.
Estou convencido de que um dos motivos da sobrevivência dos estaduais é que eles são extremamente cômodos para os torcedores. Outro dia o volante Edinho, do Fluminense, disse que “só não liga para o estadual quem não ganha”, numa versão boleira da clássica fábula da raposa com as uvas. Edinho não deixa de ter razão. Um trabalho complicado e urgente aqui na agência, que me fez chegar cedo e sair tarde nos últimos dias, não me deixou postar nada sobre o futebol do fim de semana, mas já teve são-paulino chiando. São Paulo e Santos deve ter sido um bom jogo, gostaria de ter visto, mas foi apenas mais um amistoso de pré-temporada. Importância zero. A torcida do Palmeiras também anda impossível. Depois de quase dois anos, finalmente Felipão acertou o time, Daniel Carvalho é gênio da raça, Barcos é o maior atacante das Américas, e é possível que venha aí o Wesley – aqui entre nós, um jogador nota seis, no máximo sete. Agora tá tudo lindo. Quando o campeonato acabar, os perdedores vão dizer que o paulistinha não vale nada, que é uma competição agonizante e que se trata de pura enganação. Decidam-se. 
Não pude assistir ao jogo do Flamengo contra o Friburguense. Mais tarde, quando vi que o rubro-negro vencera por um a zero, com gol de Kléberson em passe de Paulo Sérgio, fiquei com a certeza de não ter perdido nada. Pois é, amigos flamenguistas, o Paulo Sérgio voltou. Só falta o Vinícius Pacheco. 
A única coisa que consegui ver no fim de semana foi Botafogo x Vasco, que não chegou a ser mau jogo. Mas estavam no Engenhão apenas oito mil pessoas, Fellype Gabriel fez três gols e, em mais uma dessas sacanagens que escreventes vêm fazendo com pais desavisados, o lateral-esquerdo do Vasco foi registrado com o nome de Dieyson (leia-se Jason). Melhor deixar pra lá. 
E atenção: ontem, pelo Mundial Feminino de Curling, disputado na Dinamarca, Suécia oito, Canadá quatro. Jogão.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Adriano de volta ao Flamengo. Será que é o caso?
O grande Thomas Newlands já se mostrou radicalmente contra, e ameaçou no twitter não comparecer mais aos estádios caso o Flamengo concretize a contratação. Mas eu não sei não. 
Depois da Copa do Mundo de 2002, e até hoje, o que a gente viu de melhor na seleção brasileira aconteceu na Copa das Confederações de 2005, disputada na Alemanha. E naquele time que tinha Ronaldinho Gaúcho e Kaká tinindo, Adriano foi eleito o melhor jogador da competição. No melhor semestre do Flamengo nos últimos dez anos, Adriano foi destaque absoluto e dá pra dizer que, se ele não estivesse naquela campanha, o clube não teria sido campeão brasileiro em 2009. A conclusão me parece óbvia: em grande forma, como na Copa das Confederações de 2005, e mesmo vários níveis abaixo, como no Brasileirão de 2009, Adriano desequilibra. 
Vivo lembrando aqui no blog que jogadores, jornalistas e nós, torcedores, temos difculdade para admitir que o futebol acaba, o que quase sempre gera frustrações. (A última delas foi a desnecessária passagem do grande Rivaldo pelo São Paulo.) É possível que o futebol do Adriano tenha acabado, por conta dos problemas físicos, da cabeça, do descompromisso profissional e da volta e meia citada dependência alcoólica. Mas isso também havia na campanha rubro-negra de 2009, não? 
Contra a volta do Adriano, há todos os argumentos que todo mundo já sabe e ninguém precisa repetir. Entretanto, tenho pelo menos três a favor. 
Primeiro: precisamos, definitivamente, esquecer o que o Roberto Dinamite foi pro Vasco, o Ademir da Guia pro Palmeiras etc. Com raríssimas exceções, os grandes jogadores fazem hoje no máximo duas temporadas por clube, e poucos times duram mais de seis meses. Se nesse período o cara ajudar a ganhar um Brasileiro ou uma Libertadores, tá valendo.
Segundo: no meu tempo de pilotis da PUC, havia uma fórmula simples pra rapaziada se posicionar em relação a qualquer proposta econômica ou política. Era só esperar a opinião do Delfim Netto, e ir para o outro lado. Renato Maurício Prado virou uma espécie de Delfim Netto do jornalismo esportivo. Se ele é contra a volta do Adriano, talvez seja mesmo o caso de ser todo mundo a favor. 
Terceiro: nossos clubes não podem ir lá no Arsenal e pegar o Van Persie, não podem ir lá no Bayern de Munique e contratar o Ribéry, então algumas apostas precisam ser feitas. O Botafogo apostou no Cortês e deu certo, o Flamengo apostou no Everton Silva e deu errado. O Vasco apostou no Dedé e deu certo, o Fluminense apostou no Rodriguinho e deu errado. Paciência. Não sou advogado e não tenho a menor ideia se algo assim é possível, mas se Adriano reconhecer o fracasso de suas experiências no Roma e no Corinthians e aceitar um contrato heterodoxo, com pagamento proporcional aos jogos disputados, bichos por vitórias e bônus por títulos, creio que vale a aposta sim. 
Tem noventa por cento de chances de dar errado, mas pior que o Deivid não há de ser.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Campeonato Paulista e Campeonato Carioca: ou mudam ou morrem.
Ronaldo Fenômeno disse, na semana passada, que o Campeonato Paulista tem que mudar. Sugeriu que fosse mais curto e com uma fase de classificação disputada exclusivamente pelos pequenos, enquanto Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo participariam somente da fase final. A entrada cada vez maior de dinheiro nos clubes grandes causa uma disparidade espanhola em relação aos demais, e o melhor retrato do atual Campeonato Paulista é aquele zagueiro do Botafogo de Ribeirão Preto se embucetando feito vaca braba e rolando feio no chão, no lance do gol de Maikon Leite no jogo de ontem. Se fosse na Copa Kaiser ou no saudoso Campeonato de Pelada do Aterro do Flamengo, já seria uma lástima. 
No Rio, assim que o primeiro turno acabou, os presidentes de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco deram declarações a favor de mudanças no Campeonato Carioca. Falaram da urgência em torná-lo mais rentável, reduzindo o número de participantes e diminuindo o período do torneio, para permitir que semifinais e finais sejam disputadas em dois jogos. E quem tomou a frente da reivindicação foi o presidente do Flu, justamente o clube que acabara de ganhar o turno. Espero que a presidenta do Fla abandone o ridículo mimimi desencadeado pela história do Thiago Neves e não se negue a remar junto. 
O Campeonato Carioca precisa ser menor e reservar um número maior de datas para os jogos decisivos. Mas o Paulista precisa mudar tudo, porque ainda está pra ser inventado campeonato mais previsível. 
Só pra não dizer que não falei de bola rolando: a expulsão de Ronaldinho Gaúcho no Fla-Flu de ontem confirma o que escrevi sobre ele no post do dia 14 de fevereiro. Perto de completar trinta e dois anos, tendo sido titular absoluto da seleção brasileira campeã do mundo em 2002 e do Barcelona que conquistou a Champions League em 2006, eleito o melhor do mundo pela FIFA em 2004 e 2005, Ronaldinho joga como um iniciante de dezessete anos disputa a copinha. Ontem, com os dois times poupando mais da metade dos titulares por causa da Libertadores, ele obrigou seus companheiros a correr e se desgastar muito mais – Vágner Love, por exemplo, saiu de campo morto. Não cabe discutir se o primeiro cartão foi correto, e não foi. O que importa é que não havia a menor necessidade de fazer a falta do segundo cartão, numa dividida no meio-campo e com dois a zero para o Flamengo no placar. Incompreensível e injustificável. 
Vale destacar, ainda, a inesgotável capacidade que a Federação de Futebol do Rio de Janeiro tem para descobrir juízes horrorosos. Eduardo Cordeiro Guimarães, de quem eu jamais tinha ouvido falar, não precisou se esforçar pra manter o padrão das arbitragens cariocas. Errou tudo, o tempo inteiro e contra os dois lados. Mais um para a imensa coleção.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Corinthians e Al Gore. O Flamengo e Caetano. O Fluminense e a grande vitória.
A última vez em que o Corinthians jogou bem, de verdade, foi na vigésima-oitava rodada do Brasileirão, na vitória de três a zero sobre o Atlético Goianiense. O time foi mal nas dez últimas partidas do campeonato e contou com imperdoáveis vacilos do Vasco para garantir o título. Pensei nisso quando – sem ter visto o jogo, faço a ressalva – li alguns comentários sobre Corinthians x Nacional do Paraguai. Comecei a matutar, lembrei de todas as vitórias magras e no sufoco, da solidez defensiva, da importância dos volantes, e estava pronto para escrever um post defendendo a tese de que o futebol do Corinthians está cada vez mais parecido com o bem-sucedido mas chatíssimo futebol do São Paulo de Muricy. (Quer dizer, bem-sucedido em termos: uma das razões do ódio mortal do Jaime Agostini pelo Muricy está nos fracassos são-paulinos na Libertadores sob a direção dele. E como a Libertadores é, justamente, a ambição maior dos corintianos, será que aquele é o melhor exemplo a ser seguido?) Ocorre que, ontem, Vitor Birner publicou no UOL, sob o título “Corinthians de Tite lembra o São Paulo de Muricy”, um post falando exatamente isso. Como eu sou um bosta e o Vitor Birner é o Vitor Birner, tirei meu time de campo. Mas tá tudo lá. Para os corintianos, pode ser que esta seja uma verdade inconveniente (thanks, Mr. Gore), mas o fato é que o time está cada vez mais parecido com aquele São Paulo de futebol tedioso, títulos nacionais e fracassos na Libertadores. Não vejo nada de errado nisso. Só que os corintianos precisam decidir qual é sua real prioridade.
Caetano compôs, há algum tempo, um rap chamado “Americanos”, em que ele fala “Americanos sentem / Que algo se perdeu / Algo se quebrou / Está se quebrando”. No futebol a gente saca que algo se perdeu, algo se quebrou e está se quebrando quando o Ronaldinho Gaúcho está em campo, há uma falta na entrada da área e a torcida grita em coro o nome do Bottinelli. Tenho a impressão de que o problema do Ronaldinho é menos o que ele vem jogando e mais o quanto ele custa. Se Ronaldinho ganhasse o que ganha um bom jogador do futebol brasileiro, a relação custo-benefício estaria mais ou menos equilibrada. Só que, tirando o Neymar, ele ganha muito mais que todo mundo. E hoje há pelo menos dez caras – Léo Moura, Vágner Love, Deco, Wellington Nem, Dedé, Juninho, Ganso, Paulinho, Oscar e Leandro Damião, pra falar só de quem está na Libertadores – jogando mais que ele. Todas as vitórias no futebol valem três pontos, mas nem todas são iguais. Às vezes você joga muito bem e ganha, às vezes você joga muito mal e ganha, às vezes você faz um jogo pau a pau e ganha. Ontem o Flamengo ganhou jogando de forma tenebrosa. Teve o gol do Vágner Love, numa tabela curta com Ronaldinho, e dois bons chutes de fora da área, um do Deivid e outro do Bottinelli, em que o goleiro deu rebote e o assombroso Negueba fez a fineza de perder. Isso foi tudo, contra um time equatoriano que jogou o segundo tempo inteiro com um a menos. Se o Flamengo passar da primeira fase, já vai estar no lucro.
A vitória do Fluminense na Bombonera tem um peso muito maior do que aparenta, e ajuda todos os outros clubes brasileiros na Libertadores. Pouco interferiu na classificação – mesmo se perdesse, o Flu não teria maiores problemas pra ficar com uma das duas vagas de seu fracote grupo –, mas pôs pra correr um suposto bicho-papão. Não vou bater de frente com a história e dizer que jogar lá é fácil, óbvio que não é, mas ficou claro que a invencibilidade do Boca (trinta e seis jogos) tem algum parentesco com a do Palmeiras (dezessete): ambas se devem mais à fraqueza de Banfields, Racings, Catanduvenses, Ituanos e que tais do que propriamente à força dos dois times. Fora o clima e a mística da Bombonera, só o que preocupa nesse Boca que está aí é o Riquelme, e como eu implico com o Riquelme – assunto para outro possível post –, não vi nada demais no time. As vantagens para os outros clubes brasileiros são duas: a primeira é que, conforme escrevi no post publicado em 8 de fevereiro, todos nós morremos de medo do Boca, e com a derrota para o Flu em casa somada ao empate na Venezuela com o Zamora, o time periga até não passar à próxima fase. É difícil, mas pode acontecer. A outra vantagem é que, mesmo que o Boca se classifique, o jogo de anteontem mostrou que ganhar na casa deles não chega a ser um bicho de sete cabeças. Basta parar de tremer e jogar bola, como fizeram, por exemplo, Wellington Nem e Deco.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dizem que a fé remove montanhas. Mas com certeza não ganha jogo de futebol.
Já que voltamos aos tempos antediluvianos, em que jogos da Libertadores só eram transmitidos às quartas-feiras na Globo, não pude ver Vasco x Alianza de Lima ontem, do mesmo modo que não verei Santos x Inter hoje e, provavelmente, Flamengo x Emelec amanhã. Li em algum lugar que, pela coincidência de data com o jogo do Corinthians, Boca Juniors x Fluminense terá o sinal aberto para o canal FX. A conferir. Enquanto o rolo continua, o blog segue falando do que for possível. 
O bafafá gerado pela malconduzida, embora justa, demissão de Vanderlei Luxemburgo do Flamengo acabou ofuscando uma entrevista bacana do César Sampaio, publicada pelo UOL na mesma semana. O ex-volante e atual dirigente do Palmeiras declarou que, naquele timaço de 93/94, bicampeão paulista e brasileiro, não tinha nada dessa história de amizade fora do campo, grupo unido e outras baboseiras. Pelo contrário: os caras chegavam a sair no tapa, como aconteceu certa vez com Edmundo e Antônio Carlos no intervalo de um dos jogos. Sempre que se fala na conquista da Libertadores e do Mundial Interclubes pelo Flamengo, os jogadores que ganharam esses títulos vêm com esse papinho de união, formávamos uma família, etc, mas parece que também não era exatamente assim. Havia, ali, dois ou três que sequer se falavam. 
Acho muito engraçado quando estou vendo um jogo qualquer pela tevê, dois zagueiros se estranham e o narrador chama atenção para “o clima do grupo que não está nada bom”. Também me divirto quando as câmeras mostram, um pouco antes da partida começar, os dois times unidos e contritos na porta do vestiário, todos se abraçando, se beijando, rezando e entoando gritos de guerra. Seria o caso de acionar o controle remoto e procurar um bom filme, porque se essa força toda está dos dois lados, vai acabar zero a zero, não? E na hora do pênalti, em que o batedor se benze aqui e o goleiro se benze lá, o poder superior fica com quem? 
Por ser o futebol um esporte coletivo, é óbvio que o time que se preocupa com o conjunto tem muito mais chance de fazer sucesso do que o outro. Mas isso é bem diferente de achar que a vitória vai vir porque o centroavante almoça uma vez por semana na casa do lateral ou por causa do fervoroso louvor cantado na noite de sábado na concentração.
PS: Três pênaltis a favor do Vasco em São Januário? Isso é Libertadores ou Campeonato Carioca?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Se não fosse o Ganso, o futebol teria tirado folga no fim de semana.
Pouco antes de começar Santos e Corinthians, Caio falava na Globo sobre os desfalques corintianos mas lembrava o equilíbrio do elenco, a qualidade de quem estaria em campo e, distraído, disse que “o Adriano vem fazendo gol”. Quem lê o blog desde os primeiros posts, lá em março de 2010, sabe que gosto do Adriano e torço por ele, mas é um desatino afirmar que vem fazendo gol um centroavante que em quase um ano de clube marcou duas vezes. Entendo que narradores e comentaristas não podem desancar as partidas que transmitem, pois isso seria cuspir no prato em que comem, mas também não dá para ofender a inteligência alheia. 
O primeiro tempo do clássico na Vila foi do mais absoluto torpor e só deu pra salvar a categoria do Ganso. Você vê o Ganso em campo e pensa: uma hora dessas o cara vai armar a bola do jogo. Uma hora dessas o cara vai largar alguém na cara do gol. Uma hora dessas um lançamento dele vai decidir a parada. E não dá outra. Pra quem gosta de futebol bem jogado, Santos e Corinthians teria sido um tédio absoluto se não fosse o Ganso.
O Corinthians dos novos tempos vem fazendo as coisas de forma competente, mas duas enormes bobagens merecem crítica. A primeira foi ter permitido que o Adriano pisasse num gramado, pesadão do jeito que estava, quando ele teve a lesão no tornozelo. E a segunda foi ontem, ao ordenar ou permitir que o Wallace voltasse a campo. Ora, se você poupa um monte de gente, se você deixa o Paulinho no banco para entrar com o Edenílson, qual o problema em disputar os últimos minutos com um a menos, num jogo que não valia um tostão furado? Irresponsabilidade completa.
Que mané Barcos que nada! Estão pensando o quê? Pra ganhar do time aqui da terra, com Augusto Recife e Moradei no meio-campo, tem que comer muito arroz com feijão.
A rodada do campeonato carioca foi de uma chatice insuportável, mas serviu para confirmar uma suspeita: Jorge Henrique e Deivid que me desculpem, mas o jogador mais irritante do atual futebol brasileiro é o Negueba.