segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Perder faz parte do jogo. Mas não é por isso que a gente vai gostar. 
Nessa rodada quebrada e confusa, o único jogo que vi por inteiro foi, justamente, o que estão querendo anular. Igual a um monte de outras coisas do mundo moderno, o futebol periga ficar chato por causa de interferências externas em nome do politicamente correto. Não sou contra o uso de tecnologia, desde que ela seja instantânea. O chip na bola é um bom exemplo do que pode ser usado. Ultrapassou a linha do gol, algo apita no ouvido do juiz e pronto. Claro que logo se instalará a indústria dos avisos sonoros, o que fará com que os árbitros possam baixar toques diferentes para a sinalização do chip. Alguns ouvirão refrões de música sertaneja (Lelelê / Lelelê / Se eu te pegar / Você vai ver), outros ouvirão Oswaldo Montenegro (Quando voa o condor / Com o céu por detrás), a maioria deverá optar por louvores (Vem comigo dando glória / Vem comigo dando glória / O senhor já revelou / E o negócio é forte), mas isso é outro papo e o blogueiro digressiona. O que importa é que a utilização do chip seria algo imediato e possível, porque é uma chatice o que existe em outros esportes, que interrompem o jogo e se socorrem de imagens recuperadas para decidir o que deve ser marcado. Não dá. Da mesma forma, acho um saco essa moda de o STJD punir jogadores por jogadas que não foram percebidas pelos árbitros. Tudo bem que precisamos nos adaptar à evolução das coisas, mas essas inovações fariam com que Pelé – simplesmente ele – ficasse mais tempo suspenso do que em campo. Pelé seria punido por cotoveladas na surdina, por entradas tão discretas quanto maldosas, por provocar erros dos juízes com aquela história de encaixar o braço no braço do zagueiro adversário, cavando pênaltis. O chileno Figueroa, capitão do grande time do Inter bicampeão brasileiro em 75 e 76, era famoso pelas cotoveladas que intimidavam e mantinham os atacantes adversários longe da área colorada. Os juízes dificilmente viam os cotovelaços de Figueroa, mas hoje o STJD se encarregaria de abreviar a carreira do ótimo zagueiro chileno. E aí, temos um problema: ou vale pra tudo, ou não vale pra nada. Antigamente a coisa era simples: valia o que o juiz relatava na súmula, e fim de papo. O STJD condena um jogador que fez algo fora do lance, sem que juiz, bandeirinha, quarto árbitro e quem quer que seja tenha visto. Mas, e o pênalti marcado a favor do Fluminense contra a Ponte Preta, que o próprio árbitro Nielson Nogueira Dias admitiu dois dias depois ter sido equivocado? E se a Ponte cai para a segunda divisão por causa de três pontos, como é que fica? Entretanto, há algo que deve intrigar a todos nós nessa história do Palmeiras querer a anulação da partida. O que o Palmeiras quer? Perder de novo? 
Vi o primeiro tempo de Sport e São Paulo. Lucas acabou com o jogo e pôs um pouquinho mais de fermento na receita de que certos são-paulinos o acusam: será ele, realmente, um jogador que só brilha em jogos fáceis? Se isso for verdade, Lucas vai se deliciar naquela tremenda enganação que é o campeonato francês. Do lado do Sport, não dá para entender como é que o goleiro de um time que luta desesperadamente pra não cair toma um gol daqueles. Todo mundo tem o direito de errar, mas não naquela hora. Não daquele jeito. 
Resolvida a parada no Recife, me transferi para Salvador, pra ver o segundo tempo de Bahia x Grêmio. Um jogo horroroso. Aroveito para propor: já que o gol de Barcos reacendeu a questão sobre uso de tecnologia, interferência externa, STJD etc, não custa nada estudarmos uma aberração a mais: a criação de uma comissão de notáveis para avaliar os jogos. No caso de Bahia x Grêmio, em vez de cada um ganhar um ponto na tabela, ambos perderiam dois. 
Antes de tudo isso, na quinta-feira vi o segundo tempo de Fluminense e Coritiba. Ao contrário de Bahia e Grêmio, foi ótimo. Por ter virado perdendo, em mais um erro risível do previsível Deivid, o Coritiba partiu pra cima e fez um segundo tempo muito bom. O Flu, na sua toada de sempre, esperava o adversário pra dar o bote e fazer o segundo gol. Conseguiu, mas o Coritiba não se entregou, continuou brigando, marcou seu golzinho e,  pela oitava ou nona vez no campeonato, transformou o final da partida em um inferno para a torcida do quase campeão. O Fluminense tem várias coisas boas – goleiro em grande fase, defesa que joga sério e firme, lucidez do Deco, oportunismo do Fred –, mas quem está desequilibrando é o Wellington Nem. 
Está dando certo a estratégia de torcer contra quem está embaixo, e a rodada foi muito boa para o Flamengo. Nenhum dos seis times atrás do Fla conseguiu fazer mais de um ponto, o que deixou o Menguinho numa situação relativamente confortável para perder pro Atlético em Belo Horizonte. Nos últimos cinco jogos, quatro serão no Rio. E vai ser preciso superar toda a imensa capacidade de fazer besteiras – que no Flamengo é infinita – para desperdiçar a vantagem de sete pontos em relação ao primeiro na zona do rebaixamento. Que sorte, hein, Dona Patrícia?

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Foi empolgante. Mas não foi a melhor partida do campeonato.
Já vi diversos jogos do Atlético Mineiro no Estádio Independência, e eles costumam ser muito corridos e vibrantes. Ontem não foi diferente. Entretanto, acho exagero cravar o rótulo de melhor partida do campeonato num jogo que foi um massacre. O Atlético fez três gols, mandou três bolas na trave e Ronaldinho Gaúcho – jogando uma barbaridade – cansou de deixar os atacantes na cara de Diego Cavalieri, que fez pelo menos meia dúzia de defesas difíceis. O Fluminense chegou apenas três vezes na área mineira: no gol de Wellington Nem, no gol de Fred e no gol que Thiago Neves perdeu e mataria a partida, quando o placar estava um a zero para o Flu. Parecia que, mais uma vez, o Fluminense seria recompensado por sua estratégia de suportar pressão e aproveitar contra-ataque, mas Thiago Neves deu uma de suas clássicas amareladas e perdeu a chance de enfiar a faixa no peito ontem mesmo. Tudo indica que vai dar Fluminense, mas será preciso esperar um pouquinho mais. 
Depois do Fla-Flu que o Fluminense venceu com aquele golaço do Fred, Thomas Newlands postou um comentário aqui reclamando de falta do Digão no lance, e citou outra jogada semelhante: Gum empurrando a barreira do Vasco, numa cobrança de falta do Thiago Neves. Eu discordei. Houve carga tanto do Digão quanto do Gum, mas eu não teria marcado falta em nenhum dos dois lances. O que Leonardo Silva fez ontem, na falta cobrada por Ronaldinho Gaúcho, foi bastante parecido – só que ontem o juiz deu. E para atestar a rigorosa falta de coerência deste blog, penso que ontem a falta deveria mesmo ter sido marcada. Porque ontem foi acintoso. Ontem foi um exagero. Leonardo Silva não teve a malandragem e a discrição de Digão e Gum, e isso faz toda a diferença. 
Havia, lá no Rio, um comentarista de arbitragem extremamente popular, chamado Mário Vianna. Quando o juiz não ia bem, ele o chamava de “soprador de apito”. Bandeirinha que vacilava virava “gandula privilegiado”. Em todo lance discutível, as pessoas que iam de rádio para o estádio – nunca entendi muito bem esse hábito, mas enfim – aumentavam o volume para ouvir a opinião do Mário Vianna. Certa vez o juiz marcou um pênalti inexistente, o goleiro defendeu a cobrança e, a partir daí, Mário Vianna inventou um esdrúxulo bordão: pênalti mal marcado não entra. Óbvio que isso é uma bobagem completa – até Copa do Mundo já foi decidida por um pênalti mal marcado –, mas quando dava certo, Mário Vianna berrava no microfone: “Não adianta! Pênalti mal marcado não entra!” Na boa: vocês acharam pênalti aquilo que houve ontem no Engenhão? 
Estava com toda a pinta de que a partida seria como quase todas as mais recentes do Flamengo. O time jogando de modo aceitável, marcando com firmeza, não deixando Lucas e Osvaldo desenvolverem suas jogadas em velocidade, anulando Jádson, mas, apesar de tudo isso, sem conseguir vencer. Entretanto, González acabou fazendo o gol que vem ensaiando há algum tempo e o São Paulo parece ter desistido de vez do jogo quando pôs em campo Cícero e Willian José. Faltaram apenas o Maicon e o Casemiro, para declarar oficialmente aberto o Congresso Tricolor da Preguiça. 
Eu sempre gostei de zagueiro que desarma o adversário e, imediatamente, toca a bola para alguém do meio-campo trabalhar a jogada. Um dos caras que vi fazer isso com mais simplicidade e eficiência foi o Ricardo Gomes – não por acaso, indicado por Romário o zagueiro mais difícil que ele enfrentou na carreira. Pois o time do Flamengo, revolucionando o futebol de forma indiscutível, inverteu o processo: o jogador de meio-campo pega a bola, não sabe o que fazer com ela, se coloca de costas para o campo adversário e entrega pro zagueiro. Ele que se vire. 
A coisa não anda boa pro lado do Palmeiras. Mesmo quando o time consegue se ajudar, os outros não colaboram. As vitórias de Ponte Preta, Flamengo e Sport foram péssimas, o empate entre Náutico e Portuguesa não foi exatamente bom, e menos mal que o Corinthians não permitiu que o Bahia marcasse três pontos. Vi o jogo contra o Cruzeiro, e o time não foi nada bem. As melhores chances foram do time mineiro – duas oportunidades com Ancelmo Ramón, no primeiro tempo – e pela enésima vez a jogada de bola parada salvou a pátria. O Palmeiras apresentou um meia chamado Patrick Vieira que me lembrou demais o Vinícius Pacheco, jogador da mesma posição revelado pelo Flamengo. Quem torce para o Flamengo sabe do que estou falando.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Noite de gala no Anacleto. 
Gobato, Dani França, Fausto, eu, Magalha, Paulo Asano, Rafael, Saulo e Kride. Esta foi a delegação que, ontem à noite, partiu do centro de São Caetano para o estádio Anacleto Campanella, e que lá chegando recebeu dois reforços luxuosos: o pequeno pé-quente Tomás Asano, filho do Paulo, e Luís, padrinho do Saulo. Palmeirenses, corintianos, são-paulinos e eu, flamenguista, esquecidos de eventuais rivalidades e unidos para empurrar o São Caetano de volta à primeira divisão. Apoiamos o time. Perturbamos o quarto árbitro. Ajudamos o técnico Leão a corrigir os defeitos da equipe. Xingamos o treinador adversário. Pedimos a entrada do Somália. Imploramos pela saída do Somália. Aplaudimos o bandeirinha que não confirmou o que seria o gol de empate do Ceará – parece que a bola entrou. Cumprimentamos o Excelentíssimo Senhor Prefeito eleito, Dr. Paulo Pinheiro, que prometeu substituir o velho alambrado por algo semelhante àquela proteção de acrílico da Vila Belmiro. Vimos Marcelo Costa abrir o placar logo no início e Marcone, com um chutaço de fora da área, definir o jogo que estava ficando ruim pro nosso lado. Saímos de alma lavada. Com trinta rodadas disputadas, o São Caetano segue entre os quatro primeiros e cada vez mais firme na briga para voltar à divisão de elite do futebol brasileiro. Há muito tempo um jogo de futebol não fazia eu me divertir tanto. O que deve ser atribuído, em grande parte, ao atual time do Flamengo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

FDP 
Semana passada escrevi que o Fluminense tem conseguido vencer até as partidas menos prováveis – mas tem vencido por inegável competência. Futebol é bola na rede, e se um time combina força defensiva para suportar pressões com talento para matar a partida quando a chance aparece, nada a reclamar. Assim é o jogo. No mesmo texto, entretanto, eu deixava a ressalva de que não dava pra garantir que isso fosse acontecer até o final do campeonato, e ontem já foi bem diferente. Inspirado pela mística de São Januário, estádio reconhecido por seus pênaltis inexistentes e salvadores a favor do dono da casa, o soprador de apito Nielson Nogueira Dias inventou um pênalti absurdo contra a Ponte Preta, quando o Flu perdia por um a zero e, sem Deco e Thiago Neves, jogava de forma atabalhoada e irreconhecível. Não satisfeito com a invenção do pênalti que empatou o jogo, Nielson Nogueira Dias inverteu a falta que se transformou no segundo gol do Fluminense. Não adianta vir com esse papo de que o Flu não precisa, que o time é equilibrado, que mesmo se perdesse continuaria com folga na liderança. Tudo isso é verdade, mas ontem ficou feio. Canso de dizer aqui que reclamar de arbitragem num campeonato como o Brasileiro é bobagem, porque quem é prejudicado no domingo costuma ser beneficiado no meio da semana e as coisas se equilibram. Mas é desagradável demais ver essas arbitragens covardes e que “pensam grande”, ou seja, estão sempre prontas a dar uma boa mão aos clubes maiores e a operar os pequenos. Duvido que aquele pênalti de ontem fosse marcado contra o Corinthians ou o Vasco ou o Grêmio ou o São Paulo ou o Flamengo. É o tipo de pênalti que só se marca contra Ponte Preta, Figueirense, Atlético Goianiense. Apesar de adorar futebol, não tenho muita paciência para mesas redondas e entrevistas coletivas, e vejo poucas vezes. Ontem não vi nada disso, mas desconfio que Abel Braga não reclamou da arbitragem, como de costume. 
Antes que alguém possa pensar que haja algum ranço de rivalidade regional no comentário acima, esclareço mais uma vez: não torço contra o Fluminense, da mesma forma que não torço contra o Vasco ou contra o Botafogo. Torço contra ou a favor em função das circunstâncias. Ontem, por exemplo, era muito melhor para o Flamengo que a Ponte Preta perdesse o jogo, pra ter mais um ali na briga dos ainda não libertos. A questão é que, pra qualquer pessoa que goste de futebol, é muito chato ver um time mais fraco e valente perder por causa de uma arbitragem covarde. Como costumava dizer, repleto de ironia, meu falecido irmão Briguinha: pau na bunda dos injustiçados. 
Por falar em juiz, uma dica pra quem tem os canais HBO: a série “FDP”, ficção que tem como personagem principal o árbitro Juarez Gomes da Silva. Não é nada do outro mundo (nada que se compare, por exemplo, a “Filhos do Carnaval”), mas vale a pena dar uma conferida. Destaque absoluto para o genial Paulo Tiefenthaler, do “Larica total”, no papel de Carvalhosa, um bandeirinha competente, cínico, putanheiro e cafajeste. Esse é craque. 
Já tô de saco cheio de escrever a mesma coisa sobre o time do Flamengo: correu, brigou, mas não teve qualidade, errou passes de meio metro, vacilou na defesa, não soube fazer os gols e por isso não venceu. Que esse ano futebolístico termine o mais rápido possível, que o time consiga – sabe Deus como – se manter na primeira divisão, que a nossa presidenta receba das urnas rubro-negras a mesma lição que recebeu das urnas cariocas e que em 2013 se comece tudo do zero. Amém. (Oração para ser lida, com fé e fervor ainda maiores, pelos meus amigos palmeirenses. Porque ali tá parecendo que a vaca já foi mesmo pro brejo.)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Brincadeira de bobinho. 
Quando completou oitenta anos, Carlos Drummond de Andrade foi obrigado a conceder uma interminável bateria de entrevistas. Numa delas, o jornalista perguntou ao poeta o que significava fazer oitenta anos. Resposta de Drummond: significa que você pode dar uma banana pro mundo. Ainda estou longe de poder dar uma banana pro mundo, mas acho de bom tom ter um pouco mais de cuidado com o que posto aqui, pra não dar bandeira. Pensando bem, bobagem. Não há o que esconder, a data está lá no facebook pra quem quiser ver e vida que segue. Então, vamos dar bandeira. Tinha treze anos nas eliminatórias pra Copa de setenta, e fui aos jogos da seleção brasileira, então dirigida por João Saldanha, no Maracanã. O sistema era diferente, as seleções eram divididas em grupos e o Brasil venceu os seis jogos contra Colômbia, Paraguai e Venezuela. Nas partidas disputadas em casa, uma das atrações que encantava a torcida era o bobinho que os reservas organizavam no intervalo. Rivellino – que só passaria a titular um pouco antes do embarque para o México, com Zagallo de treinador – comandava a brincadeira e levava o Maraca ao delírio, com seus elásticos, seus toques surpreendentes, sua imensa habilidade. Quem viu não esquece. Quarta-feira passada, tudo o que pudemos ver de um programado jogo da seleção brasileira foi o bobinho. Só que, ao contrário da sensacional brincadeira liderada por Rivellino em 1969, o bobinho de quarta-feira passada foi uma tristeza só. 
Andei elogiando aqui Dorival Jr. e Gílson Kleina, e foi o que bastou para ambos fazerem grandes bobagens. Mas deixa eu corrigir: não é questão de elogiar, e sim de compreender. Não é nada mole ser técnico do Flamengo e do Palmeiras com os elencos que eles têm, mas isso só aumenta a responsabilidade dos dois, que não podem cometer tolices. No empate com o Bahia, Dorival Jr. escalou mal, desperdiçou os primeiros quarenta e cinco minutos e faltou pouco para perder o apoio que a torcida vem dando. Correu um risco enorme e desnecessário. 
Na derrota para o São Paulo, Gílson Kleina cometeu um erro inadmissível para um técnico de time grande. O futebol atual está tão corrido que cansa até quem assiste pela tevê, e não dá para escalar Marcos Assunção e Daniel Carvalho juntos no meio-campo. Ainda mais quando o adversário tem caras rápidos feito o Lucas e o Osvaldo. Diferentemente do que tinha sido Corinthians e Palmeiras – um jogo equilibrado até a expulsão do Luan –, São Paulo e Palmeiras foi um massacre até a expulsão do Artur. A partir daí virou um treino uniformizado. Rogério Ceni só apareceu quando atravessou o campo pra bater uma falta; Lucas, Osvaldo e Luís Fabiano transformaram a vida da zaga palmeirense num pandemônio; Denílson fez um gol que nunca mais vai fazer na vida e até o Paulo Miranda jogou muito bem na lateral-direita. Palmeiras: já tava bastante complicado, só ficou um pouco mais. 
O Fluminense tem um relacionamento pouco profissional com seu patrocinador, que interfere mais do que deveria e comete alguns desvarios. Mas é tanto dinheiro que ele bota no time, que não há como não fazer as coisas acontecerem. Depois de seis anos com apenas dois títulos de importância menor – o estadual de 2005 e a Copa do Brasil de 2007 –, depois da frustração com o vice na Libertadores em 2008 e depois da quase queda para a segundona em 2009, a partir de 2010 as coisas engrenaram. O Fluminense vem perdendo pouquíssimos jogadores nas janelas de transferência, tem se reforçado com qualidade, foi campeão brasileiro em 2010, ficou em terceiro no ano passado e esse ano é o time que faz a campanha mais equilibrada, conseguindo vencer até as partidas menos prováveis. Na semana passada o Flamengo jogou mais que o Fluminense, mas o Flu ganhou. No último sábado o Botafogo jogou mais que o Fluminense, mas o Flu ganhou de novo. Não dá pra dizer que isso vai acontecer até o fim, mas é um time que se defende bem e tem um ataque que não perdoa os vacilos do outro lado. Deco arma, Wellington Nem alvoroça e Fred bota pra dentro. É fatal. 
jorgemurtinhofc.blogspot.com também é política. Acompanhando a cobertura das eleições feita ontem pela Globo News, cheguei a uma conclusão interessante. Quando as pesquisas de boca de urna apontavam que haveria segundo turno em Curitiba, com Ratinho Jr. enfrentando o atual prefeito Luciano Ducci, os jornalistas começaram a pontear. Os integrantes da mesa – Gérson Camarotti, Cristiana Lôbo e o previsível acadêmico Merval Pereira – deram um show de conhecimento político e passaram a destacar a derrota dos ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann, principais articuladores do apoio do PT curitibano à candidatura do pedetista Gustavo Fruet. Deitaram o cabelo. Lembraram que Fruet fora figura de destaque na CPI dos Correios, que Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann poderiam pagar caro pela aposta equivocada e pela derrota, e deixaram nas entrelinhas até a possibilidade de ameaças aos cargos de ambos no Governo Federal e a seus futuros políticos. Muito bem. Veio o resultado oficial, a pesquisa de boca de urna errou mais que o Gílson Kleina e Gustavo Fruet foi para o segundo turno, ultrapassando Luciano Ducci. As elaboradas análises políticas da trinca foram todas pro cacete, mas alguém pensa que eles se abalaram? Alguém pensa que eles perderam a pose? Que nada. Puseram a culpa na pesquisa e foram em frente, continuando a desfilar sua incomparável inteligência e suas certeiras projeções. Conclusão: espreme daqui, espreme dali, o Brasil é um país onde todos se comportam como se fossem comentaristas de futebol. Bando de picaretas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Será que Gilson Kleina ajudará a desmascarar o Felipão? 
Torço com entusiasmo por toda situação que nos faça enxergar o quanto nossos superestimados treinadores são picaretas e nós somos trouxas. Outro dia li que o time do Santos, com Neymar em campo, tem aproveitamento superior ao do líder Fluminense, enquanto que, sem Neymar em campo, o aproveitamento é inferior ao do lanterna Atlético Goianiense. O que faz o técnico do Santos, o queridinho da mídia Muricy Ramalho, além de gritar “dá no Neymar que ele resolve”? O que fez Felipão em mais de dois anos à frente do Palmeiras? Por favor, tenham o bom senso de não falar em Copa do Brasil. Por isso, seria muito bacana – e muito bom para o futebol brasileiro – que, com o semidesconhecido Gílson Kleina substituindo o superastro Felipão, o Palmeiras conseguisse escapar do rebaixamento. Claro que seria um passo ainda pequeno, pois sempre haverá um bando de neófitos no estádio, em jogo da seleção brasileira, pra gritar “Volta, Felipão”. Mas seria um passo. 
É preciso ser justo. Como já acontecera no Fla-Flu do primeiro turno, o Flamengo não jogou mal contra o Fluminense. E como já tinha acontecido nas últimas quatro partidas – Santos, Grêmio, Atlético Goianiense e Atlético Mineiro –, o Flamengo voltou a jogar bem ontem. Ganhar ou perder faz parte, e até mesmo a pouco racional torcida do Flamengo compreendeu isso, mas independentemente de resultados e classificação, nas cinco últimas rodadas o Flamengo teve um time de futebol em campo. Não pode desperdiçar tantas chances de gol, claro, mas perto do que a gente viu na imensa maioria das vezes esse ano, isso aí já é um tremendo avanço. 
Em 2011 o Flamengo reclamou por não ter um penaltizinho sequer marcado a seu favor em todo o Campeonato Brasileiro. A reclamação procede: não dá para acreditar que, em mais de três mil e quinhentos minutos de bola rolando, não tenha acontecido uma só falta dentro da área nos atacantes rubro-negros. Agora, tá explicado. Depois dos pênaltis perdidos por Vágner Love no domingo passado e por Bottinelli ontem, marcar pênalti a favor do Flamengo pra quê? 
Completando a história acima: não entendi a opção pelo Bottinelli. Não sou fã do Renato Abreu, mas já o vi cobrar pelo menos uma dezena de pênaltis no Flamengo, e nunca o vi perder nenhum. Até este Fla-Flu, só tinha visto o Bottinelli bater dois – fez um, perdeu outro. Ontem perdeu mais um, aos quarenta do segundo tempo. Esse pontinho pode fazer falta. 
O Fla-Flu foi excelente. E mesmo que não tivesse sido, o gol do Fluminense já valeria a assinatura do pay-per-view. O cruzamento-passe de Deco foi perfeito, Fred teve muita esperteza para se livrar da marcação e o voleio deve ter matado Bebeto de inveja. Golaço. Entretanto, creio que o Flu deu uma certa acomodada. Teve tempo e espaço para matar o jogo no contra-ataque, mas mostrou pouco apetite. Não vi a vitória sobre o Náutico na semana passada – ouvi dizer que foi no sufoco e com uma decisiva ajuda da arbitragem –, mas o time parece ter mesmo adotado a estratégia de vencer sem convencer e sem encantar. Em princípio, não há grandes problemas nisso: o próprio Fluminense em 2010 e o Corinthians em 2011 foram campeões sem jogar bem nas quatro ou cinco últimas rodadas. A questão é que ainda faltam onze, e aí o risco é grande. 
Nos jogos de ontem pelo Campeonato Brasileiro, respeitou-se um minuto de silêncio em homenagem à apresentadora Hebe Camargo. Nada contra. Mas como eu nunca assisti aos programas apresentados por ela e li várias coisas muito boas do Autran Dourado – “O risco do bordado”, “Ópera dos mortos”, “A barca dos homens”, etc. –, fiz de conta que aquele minuto de silêncio era pra ele.