segunda-feira, 31 de maio de 2010

Jucilei acabou com Neymar, Ralf acabou com Ganso e Mano acabou com o Santos.
Mano Menezes pagou o que estava devendo. Armou o time do jeito certo pra matar o Santos, anulando os dois principais jogadores adversários e explorando as inúmeras falhas do sistema defensivo santista, quase sempre disfarçadas pela eficiência do seu ataque. Jucilei e Ralf foram perfeitos na marcação, sendo que Ralf ainda arrumou tempo para ir à frente e fazer um golaço, Roberto Carlos foi muito bem e Bruno César tem pinta de que pode resolver o problema de armação do time. O Corinthians sobrou no jogo. No Santos, é óbvio que Robinho faz muita falta, mas a questão é: será que Robinho volta a jogar pelo Santos? Felipe não é mau goleiro, mas não passa a necessária segurança e falhou naquele gol no comecinho. Bruno César estava com a bola quase colada ao pé esquerdo, o que sempre impede que o chute saia muito forte. Mesmo assim, Felipe soltou, e soltou mal, nos pés de Jorge Henrique. O segundo gol do Corinthians revelou dois problemas graves que o Santos tem na zaga: o time se defende com pouca gente, e os poucos que defendem não são lá grandes coisas. Quando a bola foi levantada para a área, lá estavam quatro atacantes corintianos e apenas três defensores do peixe – o que explica como Bruno César apareceu livre e com tempo para dominar, escolher o canto e bater. Edu Dracena e Durval são zagueiros do tipo xerifão, com muita personalidade e pouca bola. É um estilo que até funciona, desde que o time não se exponha tanto – o que, definitivamente, não é o caso do Santos. Esses problemas e essas falhas não fazem com que a equipe santista deixe de ser empolgante, mas certas coisas precisam ser vistas com calma. Às vésperas da final do Campeonato Paulista, o treinador do Santo André (Sérgio Soares) declarou que era impossível pensar em marcação individual, porque o Santos tinha cinco ou seis jogadores que desequilibravam. Alto lá. Wesley está em ótima forma e André é um centroavante perigoso, mas o Santos tem três jogadores que desequilibram. Não é fácil marcar Robinho, Neymar e Paulo Henrique individualmente, mas eles são o que o Santos tem de diferente. E, claro, tem o conjunto que se acertou e que faz a gente se iludir um pouco, achando que Marquinhos é craque, Madson é craque, Pará é craque – e não é bem assim. Acredito que, nesse momento, o ensurdecedor clamor em torno da convocação de Neymar e Paulo Henrique já começa a diminuir o tom.
O horror. O horror.
Sábado, 29 de maio. Flamengo e Grêmio no Maracanã. Aos dois minutos do segundo tempo, o Flamengo vence por um a zero, Petkovic domina a bola um pouco além do meio-campo e lança sob medida para Vágner Love. O atacante faz, então, a jogada que é sua marca registrada: se enfia em velocidade entra os zagueiros, ganha na corrida, entra livre na área e bate em cima do goleiro. Isso acontece em quase todos os jogos. A partir daí, eu tive que pedir a meu enteado Gabriel, que tem apenas onze anos, que saísse da sala e fosse brincar lá fora, porque o Flamengo passou a encenar um dos maiores festivais de horrores que o velho Maraca já pôde presenciar. Começou logo depois, aos seis. O zagueiro Rodrigo já fez vários gols de cabeça desde que chegou ao Grêmio, inclusive um golaço no primeiro jogo da decisão do Campeonato Gaúcho contra o Inter. Apesar de todo mundo saber disso, houve um escanteio contra o Flamengo e Rodrigo foi marcado por Camacho, um meia-armador esmirradinho, sem cacoete defensivo e que até agora tem tremido feito vara verde com a camisa do time principal. Rodrigo subiu, Camacho não, um a um. Aí virou filme de terror. Bruno dando chutões para o alto, talvez sem perceber que Adriano já foi para o Roma e que Vágner Love deve ter a minha altura. David chutando o vento e descendo a madeira. Léo Moura e Juan errando tudo. Ronaldo Angelim se atrapalhando em todas. Vinícius Pacheco caindo em cada lance. Aliás, eu gostaria de ver um ataque formado por Vinícius Pacheco, Dentinho e Neymar, porque seria uma experiência única na história do futebol: um ataque que joga deitado. Mas o filme continuou, e olha que o roteirista estava inspirado: quando a gente achava que já tinha visto tudo, Ramón entra em campo. Agora não tem mais como piorar, certo? Errado: vem aí Gil. O segundo tempo do Flamengo fez “Atividade paranormal” parecer uma açucarada comédia romântica. E o mais espantoso é que, depois do jogo, o técnico Rogério Lourenço declarou ter percebido uma espécie de evolução no time. This is the end.
PS: Bruno Mezenga já foi emprestado para o Legia Varsóvia, mas ainda faltam sete: David, Vinícius Pacheco, Gil, Ramón, Michael, Fernando e Dênis Marques não podem vestir a camisa de nenhum clube grande do Brasil. Os três últimos não jogaram sábado, mas mantra é mantra.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Talvez não exista nada mais bipolar no mundo do que o torcedor de futebol.
Na tarde de terça, a torcida invade o treino do Vasco. Na noite de quinta, o Vasco volta a ser o time do amor. Pois é. Ontem, em São Januário, certamente inspirado pelas paisagens da Cidade Maravilhosa e pelas mirabolantes arbitragens do futebol carioca, o paranaense Heber Roberto Lopes marcou um pênalti que o vai fazer morrer de vergonha quando puder ver o lance novamente. Pra começo de conversa, se tivesse acontecido algo, teria sido fora da área. Mas não houve rigorosamente nada, o lateral direito Nei sequer tocou em Ernâni – e mesmo que tivesse tocado, lembro aos faltólogos de plantão: futebol tem choque. Aquilo ali não é pênalti nem em jogo de freiras, mas foi bem feito pro Inter. Além dos equivocados critérios de arbitragem, há pouca coisa tão irritante no futebol brasileiro como essa mania que nossos times têm de considerar encerrados jogos com vinte ou trinta minutos do primeiro tempo, só porque fizeram um ou dois gols. Na quarta-feira, o São Paulo quase deixa escapar a vitória em um jogo que estava facílimo. E ontem o Inter entregou os três pontos de bandeja pro Vasco. Com uma atuação caótica no primeiro tempo, a equipe de Celso Roth saiu vaiada e com a torcida esbravejando contra a diretoria – o que vem acontecendo com Roberto Dinamite explica e justifica a enorme relutância do Zico em assumir um cargo qualquer no Flamengo. Mas no segundo tempo a partida se equilibrou, após o belo gol de Élton logo no início e a justa expulsão do lento e supervalorizado Fabiano Eller. (Outra coisa típica do futebol brasileiro: o impressionante poder de atração que determinados jogadores não mais que razoáveis exercem sobre alguns clubes. Fabiano Eller é um deles. O Flamengo quer, o Cruzeiro quer, o Palmeiras quer, todo mundo sempre quer Fabiano Eller. Vai entender por quê.) Phillipe Coutinho bateu bem o pênalti, Nilton fez o gol da vitória com outro bonito chute da entrada da área, a torcida fez as pazes e o Vasco voltou a ser o time da virada, o Vasco voltou a ser o time do amor. Pouco importa que o time da virada, o time do amor não ganhe nada desde 2003, já que, por motivos óbvios, segunda divisão não conta. Para encerrar: haverá em breve uma reunião da Conmebol para decidir que punição será aplicada ao goleiro Abbondanzieri, pela confusão no fim do jogo contra o Estudiantes. Se eu fosse são-paulino, torceria muito pra ele ser absolvido.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma quarta-feira em que deu pena da bola.
Ok: o Flamengo ontem não pôde contar com cinco jogadores de meio-campo (Kléberson, Willians, Fierro, Petkovic e Michael) e não há time no Brasil que consiga manter o nível desfalcado de cinco meio-campistas. Mas vamos ser justos: o Pet não tem jogado mais do que vinte minutos e a ausência do Michael não é um desfalque, é uma benção. Na verdade, o Flamengo jogou com três reservas no meio-campo, o que é absolutamente comum em campeonatos longos como o brasileiro. Qualquer time que se diz grande tem a obrigação de fazer mais do que o Flamengo fez ontem, e aí eu acho que entra a manha do treinador. Está cheio de desfalques? Perde a vergonha, posiciona o time atrás, arma duas linhas defensivas, libera Léo Moura e Juan, deixa só o Vágner Love correndo na frente, sei lá. Não vi nada de Cruzeiro e Botafogo no Mineirão, mas pra terminar só um a zero pro Cruzeiro – e naquelas circunstâncias –, Joel Santana deve ter feito algo semelhante. Fiquei com medo de que, depois do Fla-Flu, Vágner Love pegasse o celular, ligasse pra Rússia e implorasse: me tirem daqui, pelo amor de Deus! Repito (isso vai virar mantra toda vez que tiver jogo do Flamengo): David, Michael, Fernando, Vinícius Pacheco, Bruno Mezenga, Gil, Ramón e Dênis Marques não podem vestir a camisa de nenhum clube grande do Brasil. 
São Paulo e Palmeiras continuaram maltratando a bola. O que o time do São Paulo tem de eficiente, tem também de chato. Faz um a zero e para de jogar. Tá certo que futebol é resultado, mas ontem por muito pouco o resultado não foi pro espaço, contra um Palmeiras tão fraco e desarticulado como o Flamengo tinha sido minutos antes no Maracanã. Não vi o primeiro tempo, mas o segundo tempo do Palmeiras foi de doer. Eu só não entendo por que o juiz se complicou à toa, ao dar um penaltizinho muito do maroto no final da partida. Pra que dar pênalti a favor do Palmeiras? Ewerthon, que tinha sido o único a marcar na lamentável disputa contra o Atlético Goianiense, ontem se redimiu: foi lá e, batata, perdeu.    
Por fim, eu continuo achando que, para um time que joga junto há mais de um ano e é dirigido pelo mesmo treinador há mais de dois, o Corinthians está sem padrão. O time do Grêmio Prudente é horroroso e o jogo foi tão feio quanto, com pelo menos três dos quatro gols saindo de falhas patéticas. O Corinthians melhorou com a entrada do Bruno César, e quase chegou à vitória na base do desespero, da raça, da vontade e do abafa. A questão é que o Corinthians sempre foi assim, com qualquer técnico e qualquer escalação, não? Isso também vai virar um mantra: não tenho nada contra ele, mas Mano Menezes tá devendo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Imperador voltou. O Imperador já vai. Viva o Imperador. 
Existem vários pontos importantes nessa passagem do Adriano pelo Flamengo. Vou tentar costurá-los. 
O primeiro refere-se à síndrome do julgamento. De forma geral, e com as exceções de praxe, parece que os jornalistas esportivos se sentem na obrigação de emitir sentenças morais sobre tudo e sobre todos – como se eles também não tivessem lá suas mazelas, como se fossem todos abstêmios convictos, como se jamais tivessem mirado com olhos gulosos a estagiária bonitinha que entrou na redação semana passada. Pura hipocrisia. Se a maioria da nossa imprensa esportiva adotasse a linha de respeito à privacidade dos jornais franceses, em vez de optar pelo caminho sensacionalista dos tablóides britânicos, todos sairiam ganhando. Clubes, torcedores, jogadores e o próprio jogo. Mas detectar focos de fracasso em pessoas bem-sucedidas sacia a turba e vende mais. Desculpem se o blog exagera nas citações de João Saldanha, mas aí vai outra delas. Sempre que começava um conhecido tipo de campanha contra esse ou aquele craque de personalidade mais inquieta, Saldanha avisava: “Cuidado, gente, jogadores de futebol têm mais ou menos a mesma idade dos nossos filhos e fazem mais ou menos as mesmas coisas que os nossos filhos.” Espero que nenhum de nós tenha filhos fazendo as bobagens do Adriano, mas o alerta do Saldanha é de uma lucidez invejável. 
Segundo ponto: na Copa de 2002, o sério, responsável e evangélico Lúcio falhou feio no gol de Owen, tornando ainda mais difícil o que talvez tenha sido a partida mais encrencada da competição, contra a Inglaterra. Foi preciso o irreverente, sambista e baladeiro Ronaldinho Gaúcho salvar a pátria, com uma jogada genial no gol de empate do Rivaldo e uma surpreendente cobrança de falta pra virar o jogo. Não importa o que o cara faz fora de campo. Afirmar que Adriano está sem mobilidade porque não aparece para treinar é uma coisa; garantir que ele perdeu o pênalti contra o Botafogo porque brigou com a noiva é outra. Treinar faz parte da profissão, ok. Mas o que o cara faz quando não tem treino nem jogo, se gosta de funk ou de música clássica, se frequenta restaurante francês ou churrasco na laje, é problema dele. 
Terceiro ponto: é óbvio que, ao dizer que Garrincha ganhou a copa de 62, Maradona a de 86 e Romário a de 94, estamos fazendo uma simplificação inadequada a um esporte coletivo, mas o que está por trás do raciocínio é correto: se Garrincha não estivesse naquela seleção, provavelmente não seríamos bicampeões – e o mesmo vale para Maradona e Romário. Assim, não é errado concluir que Adriano ganhou o Brasileirão de 2009. Teve o Pet batendo um bolão, Maldonado arrumando a casa lá atrás, Bruno pegando dois pênaltis do Ganso no crucial jogo contra o Santos, mas quem ganhou o campeonato foi Adriano. Dezessete anos depois do último título rubro-negro, e sem que o clube tivesse passado sequer perto disso durante todo esse período. 
Quarto ponto: sou carioca e trabalho em São Caetano do Sul, cercado de corintianos, são-paulinos, palmeirenses e um santista. Pra mim não é difícil perceber como, por motivos plenamente justificáveis, o torcedor paulista passou a menosprezar o futebol do Rio. É compreensível. Até o final do século passado, Rio e São Paulo tinham exatamente o mesmo número de títulos do Brasileirão: onze pra cada lado. De 2002 a 2008, o desequilíbrio ficou evidente: enquanto os paulistas levantaram seis campeonatos brasileiros, os cariocas não conquistaram nenhunzinho sequer. O futebol carioca nunca esteve com a moral tão lá embaixo. Vários exemplos de conversas aqui no trabalho poderiam ilustrar isso, mas escolhi um do meu amigo Biza. Como todo bom são-paulino, ele não queria que o Corinthians ganhasse a Copa do Brasil no ano passado. Aí, Internacional e Flamengo se enfrentaram pelas quartas de final, para decidir quem poderia encarar o Corinthians mais à frente, e o Inter se classificou com um gol no fim do jogo, quando tudo levava a crer que o Flamengo passaria. Com toda a franqueza do mundo, no dia seguinte o Biza me confessou ter torcido muito pelo Inter, porque ele via no time gaúcho chances muito maiores de barrar a trajetória corintiana. Mas agora, nas oitavas de final da Libertadores, a coisa já estava diferente. Não apenas os são-paulinos se mostravam confiantes em torcer para o rubro-negro, como os próprios corintianos demonstravam respeito. O responsável por isso foi Adriano. 
Quinto ponto: a temporada de Adriano pelo Flamengo em 2009 foi, em tudo e por tudo, bem diferente da temporada de Adriano pelo São Paulo em 2008. O tricolor não dependia dele pra nada, porque era um time em alta, ganhador da Libertadores em 2005 e dos Brasileirões de 2006 e 2007. Muito diferente, portanto, do que era o Flamengo quando o Imperador chegou. (E, infelizmente, o que parece que o Flamengo voltará a ser agora que ele vai embora.) 
Sexto e último ponto: se pesarmos os prós e os contras, o que foi e o que poderia ter sido, creio que a torcida do Flamengo deve se sentir feliz com essa rápida passagem do Imperador pelo clube. O que ela tem que fazer é agradecer, desejar boa viagem e torcer para que ele volte logo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Voltando a falar da convocação.
Conhecidos os semifinalistas da Libertadores, os finalistas da Copa do Brasil e o vencedor da Liga dos Campeões da Europa, e com o Brasileirão ainda frio de doer nos ossos, voltemos à seleção brasileira. No post pós-convocação, escrevi que discordava de muitos dos nomes chamados, embora também não concordasse com os nomes mais pedidos. Já falei dos badalados que não foram, agora falo de quem vai. E começo logo com um desafio: façam uma pesquisa junto aos torcedores do Flamengo e do São Paulo, e perguntem se eles topam trocar o Kléberson pelo Hernanes. Creio que a resposta será sim, claro, agora mesmo para a imensa maioria da torcida rubro-negra, e não, de jeito nenhum, tá maluco por toda a torcida são-paulina. Apesar do Kléberson ser bom jogador, com muita movimentação por todos os lados do campo, e apesar do Hernanes ter uma certa dificuldade para acordar no horário dos jogos, não há como comparar um e outro. Felipe Melo começou no Flamengo e foi embora sem deixar saudades. Não posso falar de suas passagens por Cruzeiro e Grêmio, pois não as acompanhei, mas custo a crer nesses caras que saem daqui medianos e se tornam craques na Europa. Ainda que o Felipe Melo tenha melhorado muito, não dá pra chegar perto do que a gente espera de um meio-campista da seleção brasileira. Gilberto Silva – assim como Kléberson – fez uma grande copa em 2002, mas oito anos em futebol é tempo à beça. Hoje é um volante devagar, quase parando. Temos problema na lateral esquerda e precisamos torcer muito para que Michel Bastos entre e resolva. Acho que Gilberto não é mais o caso. Teria sido melhor levar Roberto Carlos? Sim. Mas Roberto Carlos ainda é aquele jogador decisivo e que metia medo no adversário? Não. Quer dizer: melhor seria, mas também não seria o ideal. O ideal não temos. Josué é um jogador tático, porém limitado. Já era assim na sua melhor fase, no São Paulo, não tem como ser diferente na seleção brasileira. Nosso futebol é repleto de gente igual a ele. Gosto do Ramires, que se movimenta tanto quanto Kléberson, mas com duas vantagens: tem um toque de bola mais preciso e aparece melhor para concluir. Só não vejo por que ter dois jogadores como Kléberson e Ramires na reserva, e por isso ficaria apenas com o apoiador do Benfica. A convocação de Doni lembra uma dessas coisas que a gente vê em montagens de equipes de governo: pertence à cota particular do treinador. Não há um argumento sequer para justificar a escolha por um goleiro que ficou na reserva durante toda a temporada. E pior: na reserva de um goleiro brasileiro. Mas a verdade é que Doni deverá ser só a terceira opção e suas chances de participar da Copa são mais ou menos as mesmas da Nova Zelândia ficar com o título. Deixa o Doni pra lá. Nosso maior problema está na falta de alguém talentoso na armação, e acho que o erro grave do Dunga foi não ter garimpado mais, não ter dado mais chances a alguns meias com potencial para encarar a responsa de organizar a seleção brasileira. Alex que foi do Palmeiras, o outro Alex que foi do Inter de Porto Alegre, Wagner que atuou pelo Cruzeiro, esses aí têm pelo menos o jeitão dos nossos tradicionais armadores, que sabem o momento certo de segurar o jogo e o de dar velocidade, que sabem a hora de tocar de lado e a de lançar em profundidade. Não digo que era pegar qualquer um deles, botar lá e tá resolvido. Mas deveriam ter sido testados, tiveram tempo de ser testados (o que não aconteceu com o Ganso, que começou a jogar bola de verdade só esse ano) e poderiam nos ajudar. A opção por um monte de jogadores com o mesmo perfil revela uma confiança cega no esquema tático. E a gente sabe que, no futebol, uma surpresinha de vez em quando é muito bem-vinda.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O título da Liga dos Campeões da Europa fica com o futebol italiano. Italiano?  
Na final da Liga dos Campeões contra o Bayern de Munique, a Inter de Milão entrou em campo com a seguinte escalação: no gol, o brasileiro Júlio César; na zaga, os brasileiros Maicon e Lúcio, o argentino Samuel e o romeno Chivu; no meio-campo, os argentinos Zanetti e Cambiasso, o macedônio Pandev e o holandês Sneijder; na frente, o camaronês Eto’o e o argentino Diego Milito. Tudo bem, o time só tem gringo, mas o treinador, o timoneiro, aquele que traça a estratégia, monta o esquema de jogo e organiza tudo, esse deve ser italiano, certo? Errado: o técnico da Inter de Milão é o português José Mourinho. 
Além de representar uma claríssima e indiscutível vitória da globalização nos gramados de futebol (mais uma vez recomendo o livro “Como o futebol explica o mundo”, de Franklin Foer), a conquista da Inter traz uma lição importante pra nós, brasileiros, que nos viciamos em ver o futebol como um esporte exclusivamente ofensivo. Não se pode creditar o título da Inter ao acaso, à sorte, a erros de arbitragem, nada disso. 
Outro dia vi numa dessas mesas redondas que o Chelsea foi o primeiro time a fazer mais de cem gols no campeonato inglês em quase cinquenta anos. Pois a Inter foi lá e eliminou o Chelsea, vencendo os dois jogos. O Barcelona tem o Messi, o Xavi, o Iniesta, o suposto casal Piquet e Ibrahimovic (esse povo fala demais: eles só estavam se consolando após a eliminação na Liga dos Campeões). Pois o Barça é mesmo um timaço, mas a Inter foi lá e passou por ele. E para completar o serviço, não tomou conhecimento do Bayern de Munique. Tudo isso com um futebol de marcação acima de tudo, clarividência na armação (Sneijder joga muito, olho nele nessa Copa) e bom percentual de aproveitamento das oportunidades. Espetáculo? Nananinanão. Não esperem isso da Inter de Milão. 
Agora, pra quem acha a Libertadores a coisa mais sensacional que existe na face da terra, a decisão de sábado deve ter sido um choque de realidade. Vamos pegar só um exemplo das quartas de final das duas competições: pela Liga dos Campeões da Europa, o Bayern de Munique eliminou o Manchester United jogando no fantástico Old Trafford, em Manchester. Nas quartas de final da Libertadores da América, o Universidad de Chile eliminou o Flamengo no valoroso Estádio Santa Laura. Se quisessem gravar esse último comercial do Itaú-Unibanco lá, acho que não cabia. Santa Laura deve ser a padroeira das peladas, dos gramados horrorosos e dos torcedores que atiram objetos não identificados nas cabeças dos jogadores adversários. 
Voltando à final, o que dizer do Bayern de Munique? Sem Ribéry, é o time de uma nota só: Robben pega a bola na direita e sai cortando pra dentro, até abrir espaço pra finalizar com a perna esquerda. É pouco. O zagueiro Demichelis foi imperdoavelmente desatento no lance do primeiro gol, e seu companheiro Van Buyten revelou enorme ingenuidade no corte que levou de Milito no segundo. 
E pra finalizar: a provável ida de José Mourinho para o Real Madrid demonstra, uma vez mais, o desprezo que os europeus sentem por esse Mundial Interclubes que valorizamos tanto. Aliás, José Mourinho é tudo aquilo que Vanderlei Luxemburgo sempre quis ser na vida, não?